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[Textos] - Apanhar o Comboio

Escrevi este texto há cerca de uma semana, mas retrata bem as minhas manhãs, nos primeiros tempos de faculdade, em que apanhava o comboio. Apanhava e, por vezes, perdia...


Apanhar o Comboio

"Ouço o despertador e abro os olhos. O visor pisca, intermitente, as míseras seis e meia da manhã. Quero dormir, quase choramingo com tanto cansaço que sinto! O despertador silencia-se. Viro-me para o outro lado e sorrio triunfante. Venci o relógio, venci o tempo, venci o levantar cedo. Era Dezembro, último mês de aulas e um dos mais frios. E estava tão quentinha nos meus lençóis polares… Realmente, não há nada como a nossa cama.

Ao fim de cinco minutos, oiço o meu nome vindo do andar de baixo. É a minha mãe a chamar-me. Suspiro, ainda deitada. Talvez o relógio tenha vencido esta batalha. Nestas alturas, apetece-me mandá-lo contra a parede, como quando acontece nos filmes. Mas, depois, lembro-me: o meu despertador está incorporado no meu telemóvel e eu preciso dele... Então, levanto-me, resignada, e começo a fazer as tarefas habituais. Visto-me, arranjo-me, tomo o pequeno-almoço, revejo a mala para ver se não falta nada. Chaves de casa e do carro, passe, dinheiro e telemóvel. Está tudo no devido lugar. Dou um beijo à minha mãe e saio. Ao chegar à saída do prédio, abro a porta e levo com uma lufada de ar gelado. Faz-me estremecer e enregela o meu nariz que começa a pingar. Constipação desgraçada! Aperto mais o casaco e dou uma corridinha até ao carro.

Faço o meu caminho de forma quase automática, tendo em atenção o piso molhado e a chuva miúda que teima em cair. Estaciono a uns cinco minutos da estação e percorro a pé aquele curto caminho, ao mesmo tempo que esbarro contra as pessoas. Senão fosse o maldito chapéu! Ou melhor, senão fosse a chuva…

Faltam-me vinte metros. Oiço o comboio, não muito longe, e aumento a velocidade. O passe já se encontra preparado no bolso do meu casaco. Passo pelo controlo e desço as escadas para passar por debaixo da ponte. O comboio entrou na estação e o coração acelera descompassado. Será que hoje vou conseguir apanhá-lo?  Tenho de conseguir, não posso chegar atrasada. Subo as escadas e as portas das carruagens já estão abertas. Duplico o esforço na recta final e, por fim, entro no comboio. As portas fecham e rasam a mala. Consegui. Hoje, consegui! A senhora que vinha atrás de mim não teve tanta sorte. O comboio segue, completamente alheado dos seus protestos. Respiro e normalizo a minha respiração. Va lá, pelo menos, hoje não vou chegar atrasada!

Percorro os corredores das carruagens à procura de um lugar. O comboio está tão cheio! Às vezes, lá tenho de empurrar uma ou outra pessoa, pedindo desculpa e seguindo em frente. As janelas estão fechadas e formou-se uma película fina de água condensada do lado de dentro. Os odores misturam-se, os vírus andam pelo ar à procura da defesa mais baixa para atacarem. Seria muito difícil abrirem a janela? Quero respirar, sinto-me a sufocar!

Avistei um! Encontrei um lugar! Ah, finalmente! Sento-me e coloco a mala e o chapéu-de-chuva, ainda a pingar, no meu colo. Abraço-me a eles como se a minha vida dependesse disso. O barulho é ensurdecedor e felizmente faço-me acompanhar quase sempre pelos meus auscultadores para ouvir música. Hoje, tinha-os comigo!

Olho para as pessoas que me rodeiam. Umas bocejam, outras falam, algumas dormem – e até ressonam – e outras, como eu, limitam-se a observar o ambiente que as rodeia. O vazio, o nada e o tudo. Algumas estão cansadas e outras estão tristes. Na verdade, ponderei na razão para tanta tristeza. E fez-se luz. Não devem ter tido muitas alegrias ultimamente… Basta ver o panorama do país. Trabalhar para pagar as contas, SÓ para pagar as contas, não é sonho de ninguém. Todavia, têm de o fazer se querem sobreviver. Vida ingrata! Começo a perceber o motivo de caras tão tristes e carregadas.

Numa tentativa vã de me abstrair da tristeza que até no ar se sentia, olhei pela janela. Vendo as pessoas e as ruas a passarem a uma velocidade que me deixou tonta, fiz um mapa mental do dia que tinha pela frente. Dividida entre vida estudantil e laboral, tinha aulas até às quatro da tarde, depois tinha de fazer o caminho de volta e ir trabalhar na loja que me empregou a part-time. Por fim, voltar para casa, jantar e dormir. Passaria, decerto, da meia-noite. Como todos os dias acontecia. E, nessa altura, só me restava esperar pelo despertador. Aquele, cuja ideia de o mandar contra a parede já não me estava a soar tão má. Os estudos, esses, ficariam para o fim-de-semana.

Findo o mapa mental, entretenho-me então a fazer desenhos na janela até o dedo ficar demasiado frio para o conseguir sentir. Encosto a cabeça, sinto as pálpebras pesadas e acabo por adormecer ao som de Times like these de Foo Fighters. Afinal, o relógio pode ter vencido a batalha, mas eu venci a guerra. E permito-me usufruir de uns bons trinta minutos de sono, enquanto o comboio não chega à minha estação." 


Imagem retirada deste blogue.

Comments

  1. Ray, Ray, gostei tanto! *.*
    Escreves tão, tão bem!...

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    Replies
    1. Tenho alturas... ;))
      Fico contente por teres gostado, foi mesmo o que senti e me lembro de pensar!

      Delete
  2. Revejo-me nisto, embora eu nunca consiga dormir nos transportes. Tenho um trauma muito grande. :P
    Ou vou a observar tudo ou a ler. Mas sem dúvida, um retrato muito fiel! :P

    ReplyDelete
    Replies
    1. Pois, eu levo na cabeça de toda a gente por causa disso. Levava! Agora já não! Eu, com o cansaço que tinha, adormecia mesmo! :PP

      Também gosto de observar, mas às vezes, a tristeza era tanta que para não ser engolida por isso, tinha de me abstrair. E era a dormir que o conseguia!

      Delete

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