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[Entrevistas] - Sandra Carvalho


Boa tarde ;) 

Eis uma entrevista que ainda tinha em arquivo - a primeira e, talvez, a única do Desejos de Alma. Como estamos no mês do Natal, decidi deixá-la aqui. Obrigada, Sandra, pela disponibilidade e simpatia!


Quem quiser conhecer um pouco mais sobre esta autora, pode fazê-lo aqui

Afirmou em situações anteriores que cada personagem tem um pouco de si. Consegue apontar-nos uma com quem se identifique mais e explicar porquê?
É verdade que cada personagem da Saga das Pedras Mágicas tem um pouco de mim. Isso acontece porque tento fazer o trabalho de um ator, «vestir a pele» do homem ou da mulher que estou a descrever e imaginar como procederia em determinada situação. Desse processo criativo resulta uma emoção que é transmitida ao leitor. Por essa razão, alguns «heróis» perderam o rumo ao longo da história, da mesma forma que alguns «vilões» reencontraram a paz de espírito. Enquanto leitora, nunca apreciei personagens planas, por isso não sinto o apelo de construí-las. Gosto de criar personagens com personalidades complexas, enriquecidas com virtudes e defeitos, para que o leitor se identifique com elas nos bons e nos maus momentos. Até hoje, a personagem mais difícil de compor foi o Halvard, em «O Filho do Dragão», pois obrigou-me a fazer alguma pesquisa sobre doenças mentais, nomeadamente esquizofrenia e bipolaridade. No entanto, fiquei bastante satisfeita com o resultado final e as opiniões que recebi dos leitores. É muito bom sentir que os objetivos foram alcançados e o nosso esforço reconhecido! Por vezes, este trabalho pode ser exaustivo, mas é igualmente divertido e gratificante.
Posto isto, torna-se difícil apontar uma personagem com quem me identifique mais. Quando os meus amigos leram «A Última Feiticeira», disseram que a Catelyn se parecia comigo... De certa forma é natural, uma vez que crescemos juntas; ela foi, um pouco, a minha amiga imaginária. Comecei a fazer pesquisa para as minhas histórias por volta dos onze anos e era a Cat quem dava corpo às aventuras que inventava. Naturalmente, acabou por se assumir como a narradora no momento em que a estrutura da Saga ficou definida. Sem dúvida, Cat reflete o que eu penso sobre a família, a amizade, o amor, a lealdade, a coragem e a determinação. Além disso, terá sempre um lugar especial no meu coração, pois foi graças à sua luz que concretizei o meu sonho.

Referiu várias vezes que o contexto familiar foi inspirador para a criação da Saga. De que forma se inspirou nas mulheres da sua vida para criar a matriarca, a Feiticeira Aranwen? Foi como uma forma de homenageá-las ou criou-a ‘de raiz’?
Antes de mais, importa explicar que Aranwen é a fundação onde assenta a narrativa: uma bela feiticeira com cabelos negros encaracolados e olhos verde-floresta, tremendamente poderosa e respeitada pelos seus pares. Quando os Seres Superiores decidem virar as costas ao Homem, Aranwen assume a missão de restabelecer a concórdia. Resoluta e ambiciosa, está disposta a tudo para que a paz e a harmonia voltem a reinar na Terra… até que se apaixona perdidamente por um humano, o guerreiro celta Cianed. Ciente de que o seu enlevo é proibido e que, se o assumir, acabará desterrada e castigada com a perda da magia, Aranwen tenta enganar o Conselho que a governa... E, ao fazê-lo, dá início à Saga das Pedras Mágicas.
Para criar uma personagem tão especial temos de mergulhar dentro de nós, perscrutar as relações que testemunhámos e perguntar quantos sacrifícios pode o amor justificar. Fontes de inspiração não me faltaram! No entanto, o maior contributo foi dado por uma grande senhora com olhos verde-floresta. A minha avó materna ficou viúva aos quarenta anos, mas decidiu continuar casada com a memória do meu avô. «O meu amigo», chamava-lhe com adoração. Aos oitenta anos ainda nos comovia com as suas recordações. Se Aranwen possuísse a sua convicção, jamais teria encantado as pedras… Mas, nesse caso, não teríamos história!

 

Pelo que temos apurado, a Saga das Pedras Mágicas tem sido comparada com a Saga Sevenwaters de Juliet Marillier. O que nos pode dizer em relação a esta comparação?
É verdade que alguns leitores estabelecem comparações entre a obra Sevenwaters, de Juliet Marillier, e a Saga das Pedras Mágicas. Tal deve-se ao facto de as duas histórias explorarem os cenários do povo Celta, girarem em torno das suas lendas e costumes e terem como ponto de partida uma família feliz que vai ser destroçada por uma feiticeira. Porém, quem gosta de ler decerto também reconhecerá opções e inspirações semelhantes em outros autores. Do mesmo modo que afirmará, sem sombra de dúvida, que, na sua essência, ou seja, na narrativa que abrilhanta os factos históricos, as duas obras são totalmente distintas. A Saga das Pedras Mágicas é uma história com alma e coração, que já alimentou muitas emoções ao longo de sete livros, fruto de décadas de pesquisa. Quando comecei a escrevê-la, estava longe de imaginar que haveria de publicá-la. E, se o meu principal objetivo era dar asas à minha paixão pela escrita, construindo uma aventura carregada de romance e ação, também tinha o desejo de mostrar àqueles que iam lê-la como era, efetivamente, a vida do povo Celta e do povo Viquingue nesse período da história, os cenários onde viviam, a organização da sua sociedade, os seus usos e costumes, os desígnios que os moviam, a forma como a magia se fundia com a sua realidade… As referências a florestas luxuriantes, a lagos sagrados, às árvores que abraçam os espíritos dos antepassados e aos venerados druidas não são fruto da minha imaginação nem da imaginação de outro autor. São factos históricos que cada escritor pode moldar em narrativas, segundo a sua inspiração. E muitos o têm feito ao longo do tempo. Alguns leitores dizem que a minha escrita é mais pessoal, mais emotiva. Contudo, no fim, ser comparada à senhora Marillier deixa-me orgulhosa pois ela é uma das minhas escritoras favoritas.

Considera que os leitores portugueses preferem autores estrangeiros em detrimento de autores portugueses? Enquanto leitora e escritora, porque acha que isso acontece?
Acho que isso acontece porque, durante muitos anos, as editoras não apostaram nos autores portugueses. E, no domínio da Literatura Fantástica, essa falta de confiança era ainda mais acentuada! Sempre fui uma leitora compulsiva de todos os géneros literários, mas quando me apaixonei pelo Fantástico fiquei a agonizar sem opções. Felizmente, a Editorial Presença criou a Colecção Via Láctea e presenteou-nos com a obra do Filipe Faria. A partir daí, outras editoras começaram a apostar no Fantástico e a dar oportunidade aos autores portugueses. No entanto, ainda existem pessoas com receio de dar o primeiro passo na descoberta do nosso trabalho, porque, durante décadas, lhes foi incutida a ideia de que só os autores estrangeiros tinham qualidade. Pessoalmente, dezenas de pessoas já me confessaram ter esperado anos para ler «A Última Feiticeira» pelo simples facto de eu ser portuguesa. Depois, dão-me o prazer de acrescentar que devoraram toda a Saga compulsivamente, pois a história vicia e a necessidade de saber mais torna-se insuportável. 

Tem havido muita divulgação pela internet e a palavra espalha-se rapidamente. Considera que comparações como a referida na questão anterior podem acentuar essa preferência?

Pode ser. Mas a recíproca também é verdadeira. São muitos os leitores da Saga que me pedem sugestões sobre outras obras, aos quais aconselho a descoberta de Marion Zimmer-Bradley, Juliet Marillier, Michael Crichton, Filipe Faria, Rafael Loureiro, George Martin, Tolkien… Os meus companheiros de aventura são os melhores embaixadores da Saga! Quem gosta de uma história ao ponto de relê-la cinco ou seis vezes, vai sempre sugeri-la à família e aos amigos. Tem sido assim que a palavra se tem espalhado. O apoio, o carinho e o entusiasmo dos meus queridos leitores fazem com que a Saga tenha pernas para trilhar o seu próprio caminho.

De forma a incentivar miúdos e graúdos à leitura do Fantástico e, em especial, à Saga das Pedras Mágicas, que mensagem transmitiria aos leitores que desconhecem o Género/Saga?
O Fantástico é muito especial porque, através dele, um autor pode explorar os demais géneros literários sem que se imponham barreiras ao seu estilo de escrita e à sua imaginação. É essa liberdade que mais me atrai e apraz. Na Saga das Pedras Mágicas posso explorar o romance, a comédia, o crime, a aventura, a política, a religião, a magia, o terror e, principalmente, dar a conhecer aos meus leitores a cultura e a vivência dos povos, sem que a realidade histórica e geográfica se torne uma limitação. Ainda existem muitos adultos prisioneiros do preconceito de que esse género de escrita se destina unicamente a crianças e a adolescentes, por apelar à esperança, ao sonho e à busca do que de melhor existe dentro de cada um de nós. No entanto, o ser humano não deixa de sonhar e de ter esperança só porque cresce! E se desistirmos de aprender, melhorar e evoluir, que sentido tem a vida? Em conclusão, o Fantástico tanto pode proporcionar-nos uma viagem idílica como conduzir-nos através do mais horrífico dos pesadelo… Resta ao leitor escolher de acordo com o seu gosto.

Pode falar-nos um pouco das suas inspirações?
Eu amo a escrita com paixão e sou incapaz de separá-la da minha vivência. Por essa razão, a minha inspiração resulta de tudo o que aprendi e experimentei, a liberdade e a inocência da minha infância, o carinho da minha família, o apoio dos meus amigos, as histórias que ouvi, os livros que li, os filmes que vi, os passeios na serra, os mergulhos no mar, a descoberta de realidades diferentes, as surpresas que cada dia me reserva… Alimento-me de cores, de sons, de cheiros, de emoções e fico feliz por isso se refletir nas palavras que escrevo. Gosto de observar e de escutar num momento, para assimilar e partilhar no seguinte. As batalhas que já travei ensinaram-me que a vida é uma bênção. Retiro imenso prazer das coisas simples… E acho que é essa simplicidade sincera que cativa o leitor da Saga e o transporta para o meu mundo.

Quanto à rotina de escrita, tem alguma? Já lidou com os bloqueios de escritor?
Não tenho rotinas porque escrevo sempre que posso, por vezes pela noite dentro até o sono me prostrar. A escrita dá-me imenso prazer, por isso achei que jamais haveria de sofrer bloqueios. Contudo, anos sem descanso, noites inteiras sem dormir e a constante tentativa de me superar em tudo o que faço, acabaram por me levar à exaustão. Certo dia, dei por mim diante do computador com a noção do que devia fazer, mas incapaz de concretizá-lo. Não me faltou a inspiração… Apenas fiquei sem ânimo para transmiti-la, como se a mente se tivesse separado do coração e as palavras não fluíssem com emoção. Acabei por aceitar bons conselhos, fiz uma pausa e aproveitei-a para concluir a pesquisa que haveria de transformar o Halvard numa personagem tão tenebrosamente fascinante. Superado o cansaço, a chama voltou a arder com veemência.

Referiu em muitas ocasiões que escreve com o coração. É como quando se cozinha com paixão? Como considera esse aspecto para o sucesso da Saga?
Sem dúvida, essa é uma excelente comparação J! Aliás, se pensarmos bem, os dois processos têm muitas semelhanças; ambos requerem um tempo de pesquisa, outro de ponderação, outro de concretização e, no fim, o desfrutar da iguaria. Nem sempre o resultado final é tão perfeito como desejamos, mas, em contrapartida, por vezes conseguimos fazer coisas extraordinárias. Durante a criação da Saga, entrego-me com amor às palavras, na expectativa de que o leitor desfrute das mesmas emoções quando estiver a apreciá-las. Sou tremendamente exigente com o meu trabalho… E os meus companheiros de aventura reconhecem esse empenho e retribuem com carinho e entusiasmo pela história.

Referiu também o seu marido em outras entrevistas, ao dizer que a sua opinião e consequentes acções (como o envio do manuscrito para a editora) foram fundamentais para que a Saga chegasse até nós. Como foi lidar com as suas críticas em relação à história? Houve alguma menos positiva?
Não será exagero dizer que, enquanto eu sou toda coração, o meu marido é todo razão. O seu pensamento é técnico e crítico, por isso é difícil impressioná-lo. Quando pus nas suas mãos a história que haveria de dar origem aos dois primeiros volumes da Saga, desejava precisamente que me apontasse eventuais incorreções e imprecisões. Vê-lo comovido, entusiasmado e absorvido na narrativa foi quase um choque. Ele acreditou realmente que a Saga era especial, por isso tomou a iniciativa de enviá-la para a Editorial Presença. Desde então, é o primeiro a ler cada livro que nasce. Essencialmente, ajuda-me a perceber se os assuntos estão bem estruturados ou se necessitam de mais esclarecimentos. Está sempre atento aos pormenores… Por isso, quando termina a leitura e se dá por satisfeito, é sinal de que pouco ou nada falta corrigir. 

E as restantes críticas familiares/amigos?
A principal critica dos meus familiares e amigos é partilhada pelos meus leitores. Queixam-se de que eu demoro, no mínimo, um ano para publicar um novo livro e que as 400 páginas que o compõem se devoram em dois dias, deixam água na boca e nervos miudinhos a corroerem o estômago.

Tem algum projecto em mente depois de terminar a Saga das Pedras Mágicas
 Tenho muitos esboços de histórias guardados em cadernos; ideias que me foram apaixonando ao longo dos anos, mas que acabaram por ficar a «repousar» enquanto a Saga se desenvolvia. Alguns desses projectos exigem uma pesquisa cuidada e grande entrega, por isso ainda não decidi qual irei abraçar. Estou convicta de que, no momento certo, saberei qual o caminho a seguir.

Quer deixar algum conselho, alguma dica para os leitores, jovens escritores e aspirantes a?
Não tenham medo de arriscar e de expor as vossas ideias. Entreguem-se à vida e desfrutem de cada instante com paixão. Por mais dificuldades e incertezas que possam surgir no caminho, não permitiam que os vossos sorrisos feneçam. Trabalhem e estudem com entusiasmo, sem nunca perderem a esperança de alcançar os vossos objetivos. Se todos nós aprendermos a desfrutar das coisas essenciais e puras que nos ligam à natureza, à família e aos amigos, seremos mais felizes.

 

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