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"Demência", de Célia Correia Loureiro

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Título: Demência
Editora/Edição: Alfarroba/ Novembro de 2011
Páginas: 400
Sinopse: Goodreads

Demência. Uma palavra que carrega tanto significado e que foi considerada tabu durante tanto tempo. Ainda o é, penso eu. Este é o primeiro romance que leio da jovem autora  -  não me estou a vangloriar, este meu parecer não podia ter vindo em melhor altura, hoje sai o seu terceiro romance, histórico por sinal, intitulado A Filha do Barão.
Curiosamente, não costumo ler muitas opiniões de livros de autores portugueses. Prefiro criar as minhas expectativas, ou não criá-las de todo, e abrir o livro com a mente em branco. No entanto, com este foi diferente. Li algumas opiniões antes de me virar para ele, não na integra, consciente de estar a adiar o inevitável. Medo de me desiludir? Talvez… Porém, nos últimos quinze meses, ou mais, tenho lido o blog da autora, acompanhado a saga que é ser-se autor/escritor – com ela e com outros – e ganho um respeito por aqueles que se dignam a mostrar ao mundo o que escreveram. Li um conto da autora antes desta história, do qual gostei muito e que despertou um sentido de familiaridade para com as vidas descritas, para com as personagens tão reais. Isto para dizer que nada do que eu escrever aqui será novo ou original. Tanto para os leitores que ponderam em comprar e certamente já terão vasculhado outras opiniões disponíveis, como para a autora, que me parece muito consciente e disposta a melhorar em cada romance, com cada crítica boa ou má. Lamento, nesse sentido, não ser de grande ajuda, mas palavras positivas também são boas de ouvir (ou ler).
Numa das opiniões li que os jovens autores colocavam a protagonista na base da cadeia alimentar, de forma a torná-la o mais humana possível e a jogar com a empatia dos leitores a seu favor. Não creio que os autores o façam propositadamente, mas têm de começar por algum lado. O que Demência me trouxe de novo foi que não senti tanta empatia com a protagonista, Letícia. Não quero tirar o mérito à autora, mas talvez por conhecer o quotidiano das gentes do interior, por ter lá família e por ter passado lá verões inteiros, saiba como a vida lá pode ser difícil. O diz que disse, as influências, as mentes retrógradas… E a mesquinhez é sentida em todo o lado, seja no interior como no litoral.
Passado o ponto da empatia com Letícia, não foi uma personagem que desgostei. Só que isso não foi suficiente para me colocar o coração a palpitar. Torci pelo romance dela com Gabriel e adorei as filhas, Luz e Maria, as meninas que pareciam ter mais do que a idade que tinham.
Gostei de Olímpia, sogra da protagonista, e o seu amigo de infância, Sebastião. Revi tanto os meus avós paternos nesta história paralela. Não pelo romance que nunca aconteceu – apenas em sonhos e distorcida por uma memória doente – mas pelo cuidar e pelo carinho que nutriam um pelo outro. A doença de Olímpia fortaleceu esse elo, e quebrou-o ao mesmo tempo, por ela não se recordar de mais de metade da sua vida, mas não pude deixar de sentir o coração apertado com este casal. Hoje em dia é difícil adivinhar-se uma pessoa que não tenha uma personagem destas em casa, que não veja a luta diária, ou que não se sinta afectado por ela.  
O início da leitura foi lento e, com o passar das páginas, percebi porquê. Não percebo nada de estrutura e, embora não tenha sido pesaroso de ler, as constantes idas ao passado (desculpem, mas o cansaço impediu-me de recordar a figura de estilo…) sem ordem alguma fez com que houvesse demasiado... Demasiada palha. Não me aborreceu e não se tornou confuso, mas foi excessivo.
O facto de a autora ter poucos diálogos, apesar de excelentes, e texto sem muitos parágrafos também ajudou à lentidão da leitura, durante a qual tive de parar algumas vezes porque ficava com os olhos trocados e me perdia nas linhas.
Nas últimas quarenta páginas, alguns acontecimentos também não me caíram bem. Não houve um boom de excitação, aquele final que nos surpreenda. E é isso que, no fundo, vemos ao longo do livro: uma história que segue uma mesma linha, quase direita, sem grandes aparatos, nem altos e baixos. Pode-se dizer, no fundo, que é uma história fiel a si mesma. [Spoiler] A questão do pulitzer ficou descontextualizada, é certo que Sebastião é um escritor, mas não acrescentou nada a não ser uma justificação pouco natural para os acontecimentos seguintes [Fim de spoiler].
Para os leitores mesquinhos como eu em relação aos erros, se os vi – e certamente que os devo ter visto – foram eclipsados pela escrita soberba de Célia. Confesso, não me recordo de nenhum que seja motivo para criticá-la e crucificá-la por isso. E mesmo que houvesse, errar é humano e as editoras nem sempre dispõem de meios de revisão.
Podia tecer mais comentários em relação às temáticas inerentes ao livro. No entanto, já tantos leitores o fizeram que volto a salientar que não traria nada de novo. 
Dou três estrelas e meia. Gostava de dar mais e espero conseguir fazê-lo em futuros romances. A autora escreve maravilhosamente bem, os pormenores com que nos brinda sobre a vida (no geral), sobre as personalidades distintas das diversas personagens, os diálogos e formas de falar... A realidade descrita e o dom da autora são factos incontornáveis.

21.01.2014
3,5*

P.S. Mais uma vez, desculpem os erros... Não tenho andado com cabeça para rever os posts... 

Comments

  1. Que review amorosa, Ivonne. A cada leitor que lê o Demência e salienta o seu lado bom, recordo-me do quanto estimo este livro e do quão essas personagens merecem o melhor de um escritor. Vou reescrevê-lo um dia, sim.

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