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Retalho de Memórias 1#

Entrego ou não entrego? Termino ou não termino?
Tudo começa com uma questão. Uma que nos pode virar a vida de cabeça para baixo.

Ao contrário do que dizem tomar uma decisão não é difícil. Tomamos um sem número delas, quase sem pensar ou perder muito tempo. O que se afigura de pior resolução é começar algo, passar para a acção propriamente dita. 

Ao princípio (de quê, perguntam vocês?) parecia fácil. Como nos parece sempre, ignorantes e sonhadores da realidade que nos envolve.
Ler, criar um blog, escrever
Passar nos exames nacionais – faculdade – acabar o curso

Três passos. Três simples passos.

Depois vieram as dúvidas e, com elas, as existenciais, que são as piores que podemos ter. Mesmo assim, continuei. Continuo sempre. Nunca desistir parece ser o meu lema, dia após dia, queda após queda.

O blog e a escrita, ainda hoje os tenho. Talvez não tanto como gostaria, mas penso neles sempre que posso e ocupo a minha mente com os universos e personagens que fui e que vou criando. Podem ser imperfeitas, mas não há pessoas perfeitas. E, de qualquer forma, não as queria dessa maneira. Gosto delas como são, com as suas virtudes e defeitos, com as suas formas de falar e gostos distintos. Gosto delas e pronto. Não preciso de me justificar. Ainda. São minhas, por ora, e de mais ninguém. E assim continuará por muitos e longos anos.

O curso, esse, tem-me feito infeliz. Muito mesmo, para quem só tem 22 anos, quase 23, e supostamente uma vida inteira pela frente. E, pela primeira vez na minha vida, eis que me proponho a desistir de algo. Desistir para conseguir reencontrar-me. Não deverá ser um sacríficio assim tão grande, pois não? Como é que se costuma dizer? Olho por olho? Tornar-se-ia um sacríficio se desistir fosse um frete e esse faço-o se permanecer no curso e não ao desistir dele. Assim o espero. 
Entristece-me reconhecer, ao longo de alguns anos, que o meu futuro talvez não esteja no meu curso, Psicologia. Aquele que eu escolhi, enquanto ainda sonhava e me permitia fazê-lo, com todas as virtudes acrescidas, com todas as consequências esquecidas. 
Não sei onde possa estar [o meu futuro], mas tenciono encontrá-lo. Encontrá-lo e deixá-lo voar, para onde quer que ele me leve. Tenciono fazer por isso, não ficar à espera. Tenciono encontrá-lo, mas não prendê-lo. 

Não posso continuar na minha vida como se fosse um espectador. Tenho de fazer parte dela, como (passo a redundância) parte que eu mesma sou.
Não posso ter medo de mostrar quem sou nem vergonha de quem tenho sido, por muito que isso me tenha custado e continue a custar.
Não posso fingir que não se passa nada e continuar como uma estátua, presa na minha suposta liberdade.
Não posso. Não posso continuar a mentir a mim mesma. Tenho de me saber capaz de me enfrentar. Sim, a mim, a pior julgadora de mim. Euzinha.
Não posso ter medo de vir a esquecer momentos. Ou melhor, ainda mais momentos. Ao longo dos anos, tenho notado uma perda gradual de memória episódica. Uau, memória episódica. Por favor, deixem-me registar o momento através de palavras. Este conceito foi dado no meu curso - não tive biologia no secundário - e nunca pensei que me viesse à mente de forma tão fácil e tão fluída. Ao que parece sempre retive algo. Basicamente, o conceito refere-se à memória de eventos autobiográficos e, ao longo dos anos tenho notado isso mesmo, uma perda de eventos que me foram importantes. Não quero continuar assim e um dia encontrar-me sozinha, só eu e os meus ossos velhos e memórias vazias que me ecoarão no corpo como palavras ocas.

Assim, irei, dia após dia, queda após queda, retalhar aqui pedaços da minha memória. Quero preservar o que tenho, enquanto ainda tenho. Haverão formas melhores? Certamente, mas se conheço outras, estou a dar prevalência a esta, que me faz tão feliz, tão realizada. É uma escolha e pronto.

Não prometo que encontrarão aqui só mar e rosas. Aliás, quase que prometo precisamente o contrário. Quase. Depois logo se vê.

E é isto. A bem ou mal, a decisão está tomada.


Sentir – escrever – fazer acontecer

Entrego ou não entrego? Termino ou não termino?
Não entreguei. Não consegui terminar o trabalho a tempo de o entregar.
Desisto ou continuo?
Continuo, mas desta vez por outro caminho. Aquele que eu mesma construirei através das minhas quedas, das minhas palavras e das minhas acções. 

Comments

  1. Gostei muito de ler...
    são opções que fazemos ao longo da vida que mais tarde ou mais cedo podemos nos arrepender...
    Aconselho sempre a acabares o que estás a fazer e se não estiveres satisfeita, então partir para outra, quem sabe se entretanto os porquês e as dúvidas não passam a fazer sentido. E se já perdeste uns anos, tb podes perder mais 1 ou 2, mas ficas com uma perspectiva (mesmo que não seja a que queres!).

    Fala a mulher que tinha os mesmos sonhos que tu, que teve dúvidas, que parou e que nunca mais conseguiu retomar nada, com muita, mas mesmo muita pena minha.

    Mas palavras, levam-as o vento.

    Pensa nisso e boa sorte, para aquilo que decidires :-)

    Beijos grandes.

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    Replies
    1. Obrigada Helga :)
      Não acredito que as palavras são levadas pelo vento, se não o que estariamos aqui a fazer? Que leriamos?
      Não vai ser um parar, mas um 'descobrir novas coisas'...
      beijinho* e obrigada por comentares!

      Delete
  2. Olá Ivonne,

    Compreendo que nem sempre as coisas sejam fáceis. Mas falta tão pouco para terminares... Pelo que descreves estás a passar por uma má fase no curso, mas será que vale a tua desistência quando falta tão pouco?
    É uma decisão difícil e quem sou eu para te estar a dizer porque caminhos deves ir. Mas tenho pena de te ver desistir quando falta tão pouco!
    Seja qual for a tua decisão, espero que seja aquela que te faz feliz.
    Beijinhos

    ReplyDelete
    Replies
    1. Ando há muito tempo em más fases, Silvana.. pelo menos, no curso. :)
      Preciso de uma mudança, para 'ontem'. Sei que vou chocar muitas pessoas e que não vou chocar minimamente outras tantas, mas há muito que me sinto infeliz e a desiludir-me a mim própria. Não quero enveredar por um futuro do qual não vou gostar. Que tipo de pessoa serei eu se o fizer? Sacrificar a minha felicidade e o meu bem-estar SÓ E APENAS porque me falta um ano? A bem ver, falta dois, se formos a contar com o estágio para a ordem. Além disso o semestre correu mal, como tem corrido sempre que não oiço os meus instintos (de parar!), e estou farta.
      Este retalho foi sobre uma decisão, mas será sobre várias coisas :P uns mais engraçados que outros, uns mais melancólicos que outros, mas podem sempre dar feedback :)

      Delete
  3. Fiquei um pouco impressionada com o teu texto e achei que devia vir aqui dizer qualquer coisa, dar apoio, apesar de não saber o que dizer.

    ReplyDelete
    Replies
    1. Impressionada, porquê? :O
      Olinda, isto são pequenos retalhos, muito gerais, nada de mais. É mais para mim, para compilar, para guardar. E são escritos no momento. Tanto podem ser eufóricos e engraçados, como deprimentes! Sou uma drama queen :D eheh mas sinto muito as coisas e acho que sempre vou sentir!
      O apoio sente-se, não tem de ser através de palavras, obrigada :)

      Delete

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