Skip to main content

"Encontro em Itália", de Liliana Lavado

22485184


São duas as razões que me levam a dissertar sobre um livro: ou adorei ou odiei… Pelas estrelas do goodreads, dá para ter uma ideia. 

Encontro em Itália é o terceiro romance que leio da autora. Se no início tinha dúvidas quanto ao título e à capa, por serem diferentes das originais, dissiparam-se ao ler o conteúdo. É certo que pode induzir muitos leitores em erro, especialmente aqueles que esperam encontrar um romance… bem, romântico. Aqui e sem querer entrar em culpas e apontares de dedo – porque não vale a pena e é desnecessário – a Marcador deve assumir a responsabilidade por não ter colocado na capa algo que reflectisse fantasia. Também a sinopse acaba por camuflar a parte do sobrenatural… “um gato que fala…”. Para os mais desatentos e para aqueles que não levam as sinopses à letra – sim, porque já estamos carecas de saber que às vezes enganam – pode acabar por sentir-se defraudado.
Consegui ver um filme que, pelas experiências das personagens e/ou da autora, serviu de inspiração-base: Roman Holiday. Se puderem, vejam!
Posto isto, acho que vou optar pelo método que tenho usado até aqui: vou por pontos para ver se não me esqueço de referir nada.

Personagens
Para mim, são o combustível que fazem andar qualquer história. E assemelham-se a petróleo raro. Uma analogia talvez um bocadinho estranha, mas vejamos as coisas desta maneira: é necessário um esforço conjunto (i.e. elasticidade mental do autor para não sucumbir à esquizofrenia que se dá dentro de si durante o processo criativo) + recursos disponíveis (entendam como quiserem…) + fazer escavações para ir ao fundo do poço (i.e. é o que distingue personagens superficiais das vívidas).
A Liliana consegue criar personagens com personalidades fortes, bem definidas, com formas distintas de falar, agir e pensar – algumas acabam por ser estereótipos da sociedade. Isto não é propriamente mau, pois permite ao leitor identificar-se com qualquer uma delas em várias situações e a questão da empatia ajuda a vergar o leitor à vontade do livro *piada privada*… Leiam se quiserem satisfazer a curiosidade.
No entanto – e aqui cá vêm as minhas malditas reservas – algumas personagens pareceram-me apenas para encher. O facto de a autora não lhes ter dado um final – como por exemplo à Bia e ao Paulo, amigos de Sara, e a Rosário e a Jorge Liz, pais de Sara, pode significar uma de três coisas: 1) não era importante dar-lhes o sentido de closure; 2) vai haver um segundo livro – oh, por favor, sim!,  embora o final deste volume seja perfeito e não há necessidade de andar a mexer ou 3) e esta foi só para encher porque me esqueci da que tinha em mente – a autora esqueceu-se deles… o que não me faz sentido. Adoro personagens secundárias e a Liliana nos anteriores soube dar-lhes a importância devida. Elas tinham a missão delas, mas iam além disso. Aqui, neste Encontro, fiquei com a sensação de que só estavam a encher os requisitos dos protagonistas, como que a completá-los só com essa finalidade. Não me batam, há quem não pense assim, eu não pude deixar de sentir isto.
Parece ser consensual: adorei “o gato”! Excelente, excelente. Não sei se mais alguém se irá identificar, mas durante todo o livro só pensei no Salem da bruxinha Sabrina, uma série televisiva que acompanhou a minha adolescência. É que o gatinho era mesmo giro e também tinha como armas predilectas o sarcasmo e a ironia… será?! Ficou muito bem caracterizado, um dos pontos mais fortes, sem dúvida!
Não entendi a atitude de Sara em relação a André e ao extra que o envolvia, mas suponho que é isso que a faz humana. Não somos perfeitos e todos temos direito a errar e, lá por não concordar, não significa que tenha gostado menos dela.
De igual forma, não houve um encerramento quanto às histórias que Sara havia criado antes de… tudo. É, portanto, um final em aberto que soube a pouco. Moving on…

Elemento Fantasia
O forte da Liliana é criar histórias por detrás da estória principal. Parece-me que a autora adora brincar com o passado, presente e futuro e embrulhá-los para depois os desembrulhar como uma criança no Natal – é uma surpresa para ela e para nós, leitores. E ainda bem. Vê-se que gosta de lhes atribuir o terra-a-terra. A fantasia e o fantástico estão patentes, mas é tudo muito real, levando o leitor a pensar na possibilidade de vir mesmo a acontecer na sua realidade.
No entanto – hoje é uma no cravo e outra na ferradura – não sei se o worldbuild está bem construído. Parece que faltaram coisas e que outras não ficaram bem definidas. É como se a autora fosse descobrindo o mundo paralelo que criou e o fosse limando à medida que escrevia. Eu entendo… a sério que sim, não a recrimino de forma alguma. Por exemplo, se era a última vida de Colopatrian e o julgamento era inevitável, por que razão haveriam de querer os intervenientes evitar que ele encarnasse mais uma vez?! Não deveria haver forma de reencarnar se estava para ser julgado. Certo? Estou a ser muito racional… Admito que talvez a minha concentração tenha falhado em algumas partes – razão pela qual demorei a ler, entre faculdade e etc etc - a minha cabeça está pior que um triturador, mas ficam as questões. A parte do julgamento foi também anti-climática, esperava mais acção, mas percebi porquê… Afinal, a autora tinha mais surpresas reservadas. Nada podia ser assim tão fácil. Era a despachar, lavar as mãozinhas e adeus?! Pois sim, ah, espera deitado!

Estilo de Escrita
A autora não desiludiu, é uma inspiração. Juntamente com autores que descobri nos últimos meses – e sem querer sobrepor uns a outros, mas também sem os esquecer – como a Célia Loureiro e a Carla M. Soares, a Liliana Lavado faz-me querer abrir a folha do word e preenchê-la com as minhas próprias esquizofrenias deambulantes… 
Como sempre, prima por uma escrita límpida, que evoca emoções no leitor, que o faz mergulhar nas suas próprias recordações e reviver as suas experiências.
Neste livro – e mais uma vez realço a minha concentração, ou falta dela, – nem sempre consegui visualizar a cara das personagens e os traços que as definiam. Sara foi a que me ficou mais na memória devido à sua personalidade e à crise por que passava. Bia devido às suas… particularidades que me fizeram gargalhar. No entanto, Henrique, Pedro, André, até Rosário… custou-me bastante às vezes prosseguir. Queria ver-lhes a cara, os olhos – que dizem ser o espelho da alma – os lábios, etc. Não sei se foi por ter sido o livro que mais trabalho deu à autora, se por ter sido escrito primeiro. Talvez por nada disto… Estas foram as minhas reservas quanto a atribuir cinco estrelas.

Temáticas abordadas
Se tivesse de escolher apenas uma, diria (i)mortalidade. Na banda sonora, uma música destacou-se de todas as outras e é com carinho e saudade que vou associá-la sempre a este livro. Young and Beautiful, de Lana Del Rey, é perfeita em todos os sentidos. Não só pelos anjos como elemento de fantasia, mas por tudo o se debateu de volta das próprias personagens; da sua própria pequenez e (in)significância, da sua… humanidade. A amizade, paixão, obsessões, dúvidas existenciais, o primeiro amor, o receio do futuro são outras temáticas abordadas, ainda que não se destaquem tanto como a primeira. De certa forma, estão todas entrelaçadas. Mas, repito, se tivesse de escolher, seria (i)mortalidade.

Final
São muitas as vezes em que um leitor fica desiludido com finais que não correspondem às expectativas que cria. Não foi isso que aconteceu aqui. Eu tinha torcido por uma coisa, mas vi-me a aplaudir com o final semi-aberto. Fugiu à regra, é diferente, um bocadinho inesperado. Não defrauda o leitor, acho que conseguimos ser inteligentes o suficiente para compreender a direcção que as coisas às vezes tomam. Não estou a referir-me ao que disse no ponto das personagens; ainda acho que faltou vermos os textos de Sara no lugar devido: nas estantes das Livrarias, mas passado o desgosto… Estou, sim, a referir-me ao epílogo. Numa palavra? Brilhante!


Liliana Lavado apresenta-nos mais um livro que reúne os ingredientes a que nos habitou com Inverso e Inverno de Sombras. Humor e fantasia destacam-se num pódio onde vários se atropelam pela vitória e que nem sempre chega para satisfazer todas as delícias aos leitores pelas saudades que deixam. Para mim, e devido às reservas, quatro estrelas bem sólidas é o que este Encontro em Itália merece e resta a saudade e a vontade de reler um dia.  

**
Obrigada* Liliana pela dupla oportunidade que me deste de ler este livrinho! :) 

Comments

Post a Comment

Deixa aqui as tuas epifanias ^^
A gerência agradece :)

Popular posts from this blog

Contos| 5 ideias para escrever

Depois de um mês que foi um D E S A S T R E, surge Março com a luz ao fundo do túnel. 
Ainda estou doente, mas se não me puser de pé o corpo e a mente habituam-se ao bem bom da caminha e não pode ser. Chega de mandriar. De pé, decidi escrever. Como se uma coisa tivesse a ver com a outra...
Eu repito: decidi escrever. Em 2013 terminei o meu primeiro draft e fiquei com menos um esqueleto na gaveta com a promessa de reduzir os restantes. Em 2014, peguei-lhe e dei-lhe uma volta de 180º, integrei muitas coisas, novas situações, personagens, twists, mas... achei que ME faltava algo enquanto escrevinhadora, talvez mais experiência como leitora. Vai daí, deixei as ideias em lume brando e dediquei-me à leitura; li de tudo, li muito, li livros pequenos e grandes, em português e inglês, físicos e e-books. 
Em 2015, propus-me a terminá-lo. E quem anda nas ruas do editanço e etc e tal, sabe como funciona. Aiiii, que isto está tão bom. Hãããn qu'é que andaste a beber?!?! Está horrível! Fui eu que e…

"A Grande Revelação", de Julia Quinn

Goodreads
Opinião
Quando se trata de Julia Quinn, não consigo ser imparcial. Não, correcção: não sei ser imparcial. Para falar a verdade, não que o seja nos outros livros que leio, mas com esta autora é diferente.
Este livro é especial, por muitos motivos. Um deles é ter revelado o GRANDE segredo que é absolutamente fenomenal. Ainda outro prende-se pelo dom que ambos os protagonistas têm em comum. Um gosto que também é o meu... e não, não vou dizer qual é porque seria um spoiler de todo o tamanho. Esperei muito tempo – talvez umas duas semanas para comprar o livro que eu pensava que sairia a dia 27 de janeiro, e mais duas semanas para comprá-lo efectivamente depois do lançamento - mas, puf, isto não é nada certo? Nada, comparado com os meses que ficarei à seca à espera do 5#, oh dear Lord…Focando a história, que isso é que importa, tinha muitas expectativas sobre ela. Quando lemos um ou dois livros de uma dada autora, ainda é como a outra. É novidade e, por gostarmos tanto, tanto, tanto,…

yWriter

Nota aos LeitoresDecidi partilhar algumas dicas, programas, sites, etc que me têm ajudado a desempenar na escrita. Incrível foi eu já ter este post escrito e agendado e alguém me dizer: tenta usar a escrita e o blogue como "testemunho" e não como "confidência". Por isso, eis-me aqui... com uma dica que me tem realmente ajudado! 
 *

Utilizo este programa há uns anos e só tenho coisas boas a dizer!

O que é yWriter?