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"A Chama ao Vento" | Carla M. Soares

A chama ao vento
Título: A Chama ao Vento
Autor: Carla M. Soares
Editora: Porto Editora (Coolbooks)
Publicação: Abril | 2014
Sinopse: Aqui
Cotação

Comecei a ler A Chama ao Vento convicta de que se tratava de um romance histórico. O primeiro publicado, Alma Rebelde, e o terceiro, O Cavalheiro Inglês, em breve nas livrarias pela Marcador, levaram-me a crer que este Chama não fugia à regra.  Confesso que nem li bem a sinopse - sou mais de ir debicando enquanto leio do que fazer uma leitura prévia, o que dá azo a "erratas" do tipo com que me afundei aqui. A minha assumpção acabou por não estar totalmente errada, por assim dizer, uma vez que este volume tem analepses que nos levam ao passado, aos anos 30-40 e 70, pela altura da Guerra que massacrava a Europa e o mundo e num Portugal oprimido pelo governo ditatorial e povoado por estrangeiros que procuravam um porto seguro. 

Esta introdução à laia de explicação serve para dizer que comecei a leitura em Julho e só a retomei à séria no fim de Novembro. Curiosamente, o mesmo aconteceu com Inverno de Sombras A Filha do Barão, ambos de autoras portuguesas e publicadas pela Marcador, aos quais também dei cinco estrelas. Às vezes acontece-me isto, por uma razão ou outra tenho de parar. Não porque não estou a gostar ou por ser aborrecido, mas apenas porque sim, enfim não sei explicar bem e nem é para isso que o post serve. Vá-se lá perceber estas contradições. Gosta-se, mas para-se; tudo bem, o entendimento, esse, fica para outro dia. 

A opinião propriamente dita...

Quando parei há uns meses na página 122 [de 400, no meu kobo, ao invés das 430 indicadas no goodreads], nunca imaginei o desenrolar, o encadeamento de ideias, a história dentro da história que me foi - nos é - apresentada.  


Para ser sincera, não sei por que razão parei e sinceramente acho que nao vale a pena dissertar mais sobre isso. A escrita da autora é soberba, já havia notado isso no seu Alma Rebelde, e um pouco n'A Grande Mão, que para minha vergonha nunca cheguei a terminar, e também em alguns posts com textos e opiniões no blog de autora. Lemos umas quantas frases e ficamos cativos nas suas palavras, queremos ler mais e mais e mais até os olhos fecharem de exaustão. Acaba por ser uma escrita que nos exige atenção e concentração, que exige uma leitura lenta para saborear


Ao debicar a sinopse, não entendia aquela primeira frase enigmática. 


"Um corpo anónimo é lançado à água num misterioso voo noturno sobre o Atlântico…"

Um corpo pertencente a uma das personagens, claro, uma que teve um papel fundamental ao fim e ao cabo cujo desenvolvimento é lento e que nos permite a nós, leitores, descodificarmos à medida que nos vai subindo o véu. Portanto, resumindo: a história retrata três gerações; a primeira data da década de 30-40, a segunda de 70 e a terceira da actualidade, encabeçada por Francisco. Após a morte da avó Carmo, Francisco é abordado por um amigo da avó de longa data, o Sr. João Lopes e, com este contacto, tem a oportunidade de ter acesso a uma vida que a avó lhe negou, por palavras e por gestos contidos, e de finalmente poder vir a compreender as razões da sua contenção nas relações, da sua alienação da e na sua própria vida. 

Sobre as personagens, admito que fiquei algo frustrada com Carmo. Entendi as motivações da personagem, entendi e senti o seu amor desmedido e as decisões que a levaram a uma vida de mártir e de silêncio forçado. Entendi e entendo, sim. Só que... esta ideia ultrapassa-me, não consigo compreender, a de mulheres que engolem as palavras e se rogam a uma vida triste de silêncio e de quase completa solidão. Enfim, talvez um dia lá chegue. No entanto, a personagem pareceu-me bastante bem desenvolvida, só a queria abanar de tão parvinha que era e de tão parvinha que foi. E o Sr. João Lopes... também me tirou uns quantos desejos de o abanar fortemente. 


Quando a Dekel, fui pesquisar porque adorei o nome. O significado inglês e grego: dusty one; servant; hebraico: palm tree. Desconheço se o nome foi escolhido com um propósito ou se foi pela sua sonância única, ou por qualquer outra razão ou mesmo nenhuma, não deixa apenas de ser curioso dada a origem e a religião desta personagem misteriosa. Suscitou-me sempre dúvidas "será que é?", "ah, não pode ser, é um canalha!", "afinal, hum...", para no fim a minha reacção ser "caraças do homem!". Quem ainda não leu não percebeu a última frase, enfim, paciência. Só digo que enquanto lia passagens em que Dekel aparecia tive sempre presente Schindler, uma personagem bem real que teve um papel preponderante na História. Não sei por que razão a minha mente vagueava na sua direcção, talvez por ter sido no mesmo contexto de guerra e de medos e de fugas e de assassinatos em massa; talvez por nada disso, talvez seja mais uma associação errada. 


O contexto... as migrações, as fugas, a procura de estabilidade e de uma vida melhor algures longe da zonas de maior sofrimento e sofrimento directo... tudo fez parte de uma realidade premente durante a guerra e durante o estado ditatorial em Portugal. Dificilmente encontramos alguém que não teve um emigrante na família, ou até mesmo imigrante. Infelizmente sobre isto não posso dizer mais com risco de dizer asneiras, só posso assegurar que não aborreceu a forma como a autora inseriu o contexto, foi de forma tão leve e ao mesmo tão intricada... magistral. 

Chegada ao fim da jornada e agora olhando para trás, Francisco acabou por aprender as suas verdadeiras origens e mesmo a acção actual do livro ter decorrido em pouco mais de uma semana, conseguimos observar um crescimento e uma mudança quantos aos seus objectivos de vida, quanto às suas relações e em relação a si mesmo. Parece que, de facto, conhecendo o passado se consegue um futuro. 

A sinopse termina com: "Um retrato íntimo de Portugal em três gerações, pela talentosa escritora de Alma Rebelde." Sim, sem dúvida, subscrevo cada palavra. Pergunto-me então por que não foi publicada em papel... pois o talento, esse, é inegável. Enfim, outro assunto que não posso - nem devo - dissertar por aqui... tenho de aprender a lição. 

Um aparte que me foi paralelo à leitura e estou a ser totalmente sincera: durante as analepses imaginei um filme a preto e branco. Vi muito poucos, sou sincera, um ou outro, aqui e ali, o último foi Sabrina, de 1954, mas não seria maravilhoso se víssemos este livro adaptado ao grande ecrã? Muito melhor que alguns filmes sem emoção, sem profundidade, sem nada de nada que os torne inesquecíveis. Já este... seria uma aposta segura, tanto em filme ou série. A preto e branco!

Comecei este romance convicta de que se tratava de um romance histórico. Li, parei, retomei a leitura envergonhada por ter deixado a meio, cheguei ao fim e agora digo: é muito mais do que isso. Um apanhado geral de temas, como sempre faço, sendo que vai ficar incompleto, claro: amores e desamores, amizades, guerras, espionagem, mistérios, amizades, sacríficios, fugas, mortes, conflitos familiares... tudo isto e muito mais é o que podemos encontrar nest'A Chama ao Vento, um livro tão complexo e delicioso que mais parece uma matryoshka. 

P.S. Ao início não entendia a origem do título... agora... ah!

Comments

  1. Ah, Ivonne, fico tão contente que tenhas acabado por gostar! Que bela maneira de começar o dia! :D

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    Replies
    1. Só me apetece continuar a falar sobre ele :P que mania!

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