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"A Sombra de um Passado" | Carina Rosa

A Sombra de um Passado 
Título: A Sombra de Um Passado
Autor: Carina Rosa
Editor: Coolbooks (chancela digital da Porto Editora)
Data da publicação: Dezembro | 2014
Sinopse: Aqui
Cotação:

*pode conter spoilers*

Começo por dizer que fui leitora-beta (beta-reader) da autora. O processo beta neste livro foi um pouco diferente de como costumo actuar – li capítulo a capítulo, espaçados à medida que iam sendo escritos – e apenas dei um parecer geral e fazia alguns comentários no texto. Acho até que nem cheguei a ler os últimos capítulos, pois a autora ia dar-lhe uma nova esfrega. Isto aconteceu o ano passado por volta do Verão e, desde aí, muita coisa mudou: a escrita da autora cresceu imenso e eu deixei de ser leitora-beta e fiquei mais exigente com o tempo enquanto “leitora-comum”.

Posto isto… ressalvo que gostaria de ter gostado mais, passo a redundância. Não vai ser uma opinião fácil, porque considero a autora uma amiga e sei o quão ela se esforça por melhorar e agradar aos leitores. Também sei que é difícil agradar a todos, os gostos são variados, mudam no tempo, mudam por uma variedade de razões. É uma tarefa impossível.

Durante a leitura-beta, lembro-me de ter gostado do Hugo, da sua faceta de homem endurecido pela vida, lembro-me de que não tinha simpatizado muito com a Clara e de ter achado o Santiago um meloso do pior, chamem-me fria ou o que quiserem, ele era demasiado “manso” e amoroso para o meu gosto.

Como sempre, vou por pontos a ver se não me esqueço de referir nada.

Personagens
Com a leitura desta nova versão, continuo na minha, continuo a não gostar da Clara. Isto de não simpatizar com uma das protagonistas tem muito que se lhe diga. Clara teve um passado marcado por violência e maus tratos, uma vida sem liberdade e confinada a um mundo de crimes, sexo e drogas e uma relação doentia com homem marcado pela discriminação. Depois conheceu Santiago, um homem em tudo diferente do que conhecia e da sua própria personalidade. O que me enfureceu foram as falhas de comunicação que caracterizavam a relação com o marido, em oito anos de relacionamento ela nunca lhe contou a outra relação, a única que tivera para além da que tinha com ele, ainda para mais tendo uma filha em conjunto. Pergunto-me como é que é isso possível? Oito anos? Sei que isto é uma faca com dois gumes, por um lado é compreensível que ela se tenha retraído, marcada como estava, mas por outro uma relação de oito anos não se suporta sem se falar primeiro no passado, certo? E esta questão leva-me à personagem seguinte.

“I like a man who’s good, but not too good – for the good die young, and I hate a dead one.”  - Mae West, com uma citação perfeita. Quando digo que Santiago é meloso e demasiado manso, não sei se o problema é meu ou da caracterização da personagem. Talvez a minha própria relação com a autora não me deixe ver com a imparcialidade de que necessito, mas aqui vai. Em oito anos de casamento, Clara fugiu de conversas sobre o passado, sobre as cicatrizes que tinha nas costas e a tatuagem que tinha no peito. Santiago perguntava-lhe, a curiosidade é inerente ao ser humano, claro, e “respeitava-a” quando ela não queria falar disso… Ok, então, deixa-me ver se percebi: respeitava-a porque não a queria ver sofrer? Outra vez, a faca com dois gumes. O respeito numa relação pauta-se por respeitar o silêncio do outro, mas também não se define bilateralmente? É que pelo que vi, Clara não tinha respeito pelo marido, não o suficiente para lhe contar, e o deixar penetrar nas suas defesas. Um dos meus lemas de vida é “se sirvo para os momentos bons, também sirvo para os maus” e se queremos viver os bons, temos de saber viver com os maus. E Clara, na sua tentativa de esquecer o passado, só o arrastava na lama e afundava-se nela. O título adequa-se bem, ela viveu durante dez anos à sombra de um passado que queria esquecer simplesmente porque não o enfrentava. Isto deveria ter sido o suficiente para me fazer sentir empatia, mas só me entristeceu porque aconteceu o contrário. Não acredito que um homem seja assim, voltem a chamar-me descrente. Oito anos é muito tempo para suportar uma vida de subterfúgios, de segredos e omissões, ele contentava-se com o que tinha? Não acredito. Muito mais tenho a dizer sobre esta personagem, mas andaria de roda do mesmo e tornar-se-ia cansativo, adiante.

Hugo era uma personagem que me estava gravada na mente como sexy e forte. De certa forma, consegui compreendê-lo. Não creio que a discriminação seja justificação para os sentimentos e acções dele, mas acabou por defini-lo e moldar-lhe o caminho, as decisões e as loucuras. Hugo tinha tanta bagagem: um passado marcado pela já mencionada discriminação, pelas drogas, pelos gangs, bares e motas. E foi tudo tão mal aproveitado – na minha opinião – o que me leva ao ponto seguinte.

Enredo
Quando cheguei a 50%, estava desiludida. Só tinham ocorrido três situações de destaque: o reaparecimento de Hugo, duas cenas de sexo com o marido e o reencontro cara-a-cara com Hugo. Tudo o resto foram analepses que nos deixaram conhecer o passado, como Clara e o Hugo se conheceram, a relação conturbada com o pai e por que Clara fugira de casa, como conhecera o marido, o passado do próprio Hugo... gostei das analepses, estiveram bem inseridas, foram fugazes, exemplificativas do que Clara sentia e mais adiante vou explorar por que razão isto me deixou triste.
A prisão e o passado de Hugo – que poderiam ter sido tão mais desenvolvidos - foram mencionados por alto diversas vezes. Mencionados, sim, mas não explorados a fundo. Teria sido interessante mergulhar no mundo que a sinopse nos mostra, para o qual a autora nos preparou… e, afinal, ficamos a boiar, por ser tudo superficial.
Também aprofundamento de pensamentos e monólogos das personagens me pareceram um excesso, muitas, muitas lágrimas, às tantas já estava aborrecida, porque se tornou repetitivo ler sempre o mesmo: as drogas, a violência, o sexo, o passado, o sofrimento, o amor, os receios, as omissões… enfim. Tal como disse, gostaria de ter visto um aprofundamento do mundo exterior, equilibrado com o interior que a autora desenvolveu bem – em demasia para se coadunar com o meu gosto, mas não lhe posso tirar o mérito da intensidade com que escreveu. Mais conflitos, mais acção [a vertente dita “perigosa” ficou mais desenvolvida no Hugo, enquanto personagem, não pelo que o rodeava e as razões que o tornaram assim], acção rápida e violenta, mais altos e baixos, menos repetições, menos sentimentos - foram tantos que me aborreci por vezes.

Tal como disse, não consigo distanciar-me. Fiquei triste por não ter gostado mais e o rating modesto de três estrelas deve-se à vertente psicológica que transborda do livro e à enorme carga emocional. A autora poderia ter desenvolvido mais, tinha tanto por onde pegar, tanto por explorar e, a meu ver, focou-se em demasia nos sentimentos e monólogos interiores.

Não sei se foi da minha exigência face aos livros que leio, das minhas expectativas em relação a este, se problema do próprio romance que careceu de tudo o que referi em cima ou ainda se da altura, que não foi a certa, para ler esta história… espero um dia poder ver um romance da Carina equilibrado: vertente descritiva, vertente emocional e psicológica, a vertente com as temáticas em harmonia, com ponderação e sensatez.  A autora tem tudo para se tornar um camaleão, só tem de explorar e escrever, escrever muito, escrever mais, experimentar tudo e não ter medo de arriscar.

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