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"O Cavalheiro Inglês" | Carla M. Soares

O Cavalheiro Inglês
Título: O Cavalheiro Inglês
Autor: Carla M. Soares
Editora: Marcador
Publicação: Dezembro | 2014
Sinopse: Aqui
Cotação

Interessante. Não houve um único livro da Carla M. Soares ao qual eu não tenha atribuído uma cotação de 5* - genuinamente merecidas. O AlmaRebelde, o bebé da autora de 2012, foi o primeiro do género que li, um dos primeiros livros que não só marcou o meu regresso à leitura como revelou uma história doce que nos remeteu para uma época de casamentos forçados e em que poucas vezes o amor prevalecia. O A Chama ao Vento, publicado em formato digital pela Coolbooks este ano, tratou de várias temáticas entre elas a necessidade de fugir à opressão de um governo ditatorial para países como a Alemanha – um facto que abarcou a minha família – com segredos familiares, sacrifícios e a necessidade quase visceral do protagonista de descobrir o passado para ter um futuro; um livro que me foi especial por diversos motivos e ainda mais por mérito da autora.

E, finalmente, vem este Cavalheiro Inglês… não de armadura reluzente no seu cavalo branco e cabelo ao vento, mas com um português de pronúncia defeituosa que nos aquece o coração e um temperamento que sem o tornar no diabo também não o torna santo, com uma proposta… terrível e deliciosa que chega na altura certa. Tenho tanto para dizer, como já vem sendo hábito quando adoro um livro de alma e coração, que nem sei por onde começar.

Ora… vamos lá.

Introdução – Contexto Histórico
Começo por dizer que foi terrivelmente bem incluído. Sem pesar, sem aborrecer, com detalhes ínfimos da vida quotidiana, dos locais, das viagens, dos jornais que se liam, da gastronomia, dos costumes, da palavra… da economia, da política, da geografia, das culturas… Ai!

Muito resumidamente (e quem não quiser aborrecer-se passe para o ponto seguinte): estamos em 1892, altura em que já se nota a proximidade do novo século. Seis anos antes, em 1886, fora criado o Mapa Cor de Rosa de forma a delimitar as colónias africanas que ficariam a cargo de Portugal – Angola e Moçambique – e de outros tantos países como a França e a Grã-Bretanha. Em 1890 deu-se o Ultimato inglês, que veio agitar ainda mais a fragilidade económica e política portuguesa – isto porque exigiram a Portugal que retirasse as suas forças militares das próprias colónias e a concessão efectiva de retirada foi vista como humilhação aos olhos dos republicanos e de outros tantos que acusaram o governo e a monarquia de serem os responsáveis.

Foi, portanto, uma altura de grande instabilidade. Surgiram os primeiros protestos contra a monarquia, as primeiras reuniões em segredo, a constituição de grupos de discussão, alguns até de acção, aqui e acolá, primeiro republicanos, depois anarquistas e a evolução não parou por aqui insurgindo-se contra o sistema de forma mais violenta – não foi por acaso que anos depois ocorreu o Regicídio. Criticavam-se os esbanjamentos das classes altas, vinham a público os maus negócios, com ou sem interferência dos ingleses que eram olhados de lado, a desnivelar as classes e a colocá-las na bancarrota e a segurança que os títulos lhes providenciaram durante séculos começou a perder importância.

Sem esquecer que nesta altura as mulheres finalmente acordaram para a luta pela liberdade de opiniões e igualdade entre os sexos na política, na economia, onde fosse, onde houvesse a mais pequena brecha elas conseguiam intrometer-se; através de artigos de jornal sob pseudónimo ou de conversas clandestinas, vemos a astúcia feminina a revelar-se…

Personagens
Depois da introdução, as personagens. Temos Sebastião, um jovem dividido entre o respeito que deve à família, o amor à noiva e os seus ideais políticos, ora republicanos, ora anarquistas, de limites pouco definidos e passíveis de mudança pela mais pequena promessa de liberdade ou pela simples oportunidade de alcançar um futuro melhor. Uma personagem que me deixou de coração nas mãos, que temi o pior, bem construída com uma relação fraterna com Sofia muito semelhante à que eu tenho com o meu irmão – respondendo às inúmeras perguntas de retórica da protagonista, sim, é assim com todos os irmãos!

Sofia… Sofia! A protagonista é uma jovem que, tal como o novo século, marca a diferença à sua maneira. Mostra uma independência e irreverência inusitadas para o seu sexo e para a própria época, com uma mente que procura estimulação e um coração que busca, acima de tudo, amor e compreensão pelos seus interesses e necessidades únicas que não são bem vistas pelo círculo social em que está inserida. O que me ri com ela; os pensamentos que contradiziam as suas palavras, os morderes de língua para não falar demasiado, a censura que a si própria remetia quando não era bem-sucedida nos seus intentos, os desafios a que se colocava - contra a família, contra a sociedade, contra o “Pavão”, “carinhosamente” assim tratado por ela, o Duque de Almoster, que a cortejou durante uns tempos.

Ah, o Duque de Almoster! Esta personagem, odiosa personagem, fez-me querer entrar no livro e esbofeteá-lo e fazer sei lá mais eu o quê. Odioso! Redimiu-se, indirectamente claro, lá para o fim pelas particularidades que o tornaram único e que me fizeram rir com perversa satisfação! Redimir talvez seja a palavra errada, “redimiram-no” talvez seja a expressão correcta, já diz o ditado, “cada um tem aquilo que merece”.

E, finalmente, só mais esta - não vou falar de mais nenhuma, com receio de não sair daqui. Mr. Robert Clarke, o cavalheiro inglês... outra personagem que me fez rir. Pronúncia “ser” terrível, mas os leitores “compreender”, estou certa disso. Os ingleses não eram vistos com bons olhos, muito devido ao Ultimato, mas este homem rebelou-se contra as convenções, tentava a custo – também para benefício próprio – injectar em Portugal algum dinheiro, que tanto fazia falta, e na maioria das vezes só levava patadas. E é isto, o orgulho e o preconceito dos portugueses que há tanto nos define, sem tirar nem pôr, perfeitamente caracterizados. Reclamamos dos estrangeiros, continuamos a fazê-lo [tema que daria pano para mangas…], mas não vemos o quão eles nos ajudaram, e ajudam, a erguer das cinzas. Nem todos… Enfim, estou a extrapolar para outras águas.

Admito, um pouco envergonhada, que me apaixonei por este cavalheiro. Poucas são as vezes em que isto me acontece… Robert tem falhas, claro, como qualquer homem, qualquer ser humano. Não faz disso segredo, tentando equilibrar a fasquia com os seus muitos lados. Ele disse algo que me fez e faz todo o sentido: “Não haver nada para entender. Pessoas não ser só uma coisa. Ser muitas coisas, e fazer muitas coisas de muitos maneiras diferentas. Coisas bons, coisas más.”. É verdade, as pessoas fazem coisas boas e coisas más e não devem ser definidas por tudo o que fazem mas como reagem a isso e se comportam depois. Uma boa acção não desfaz uma má, é claro, mas as más são tão necessárias como as boas, afinal a balança tem dois lados… para que servirão, alguém me dirá? E se falam, porque as línguas, boas ou más, vão sempre falar, que falem, o que importa no fim é a consciência de tarefa bem cumprida. E Robert tem a sua tranquila q.b.

Todas as outras personagens tiveram as suas singularidades, individuais e colectivas. As aparências que servem de engenho às classes que não querem deixar morrer a sua condição e o seu bom nome faz-me sempre confusão. Não devia, porque continua nos dias de hoje, é transversão e longitudinal, deve ser algo inerente ao ser humano, é mais forte que nós. Enfim. A opinião já vai longa.

Escrita
Uma nota rápida, muito merecida. Lembro-me de no Alma ter referido que o estilo era rico e variado, que não precisava de ir ao dicionário para perceber certas palavras, elas próprias faziam-se entender pelo contexto, um dom raro até nos escritores estrangeiros. Hoje, já tendo lido três romances da autora e fazendo um paralelismo com o meu mestrado de organizações, com a “pessoa certa para o lugar certo”, digo que a Carla parece encontrar o lugar certo para a palavra certa, ou vice-versa, nem sei, ou as duas coisas se é que isto faz algum sentido… Notou-se um amadurecimento brutal do primeiro publicado para este terceiro filho. 

Foi uma aposta segura da Marcador, fico muito contente por terem aceite esta autora no catálogo e evidenciá-la na colecção RTP. É um livro com alma, com um contexto com acuidade histórica notável, um romance de paixão fervorosa que nos faz encarquilhar os dedinhos dos pés... 

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