Skip to main content

"O Longo Inverno" | Ruta Sepetys

O Longo Inverno
Título: O Longo InvernoAutor: Ruta Sepetys
Editor: Contraponto
Publicação: 2011
Título/Publicação Original: Between shades of gray | 2011
Sinopse: Aqui
Cotação: 


Hoje começo por algumas citações que adorei:

“… diz que o mal persistirá enquanto os homens e as mulheres bons não se decidirem a agir. (...) A minha maior esperança é a de que as páginas guardadas neste frasco despertem em vós os mais profundos sentimentos de compaixão humana. Espero que eles o incitem a agir, a contar a alguém. Só então poderemos garantir que este tipo de mal jamais se repetirá.”  pág. 263

“Plantei uma semente de ódio no meu coração. Jurei a mim própria que cresceria até se transformar numa árvore enorme e havia de estrangulá-los a todos com as suas raízes. (…) Eu tinha de falar. Escreveria tudo, desenharia tudo.” – pág. 53

“Uma consciência pesada não vale uma ração complementar de comida” – pág. 104, Elena, mãe de Lina, sobre a proposta do NKVD para espionar para eles em troca de comida.


“Tentei encontrar um padrão. Como estaria a ser feita a selecção dos que estavam prestes a ser deslocados? Mas não existia nenhum padrão. A psicologia do terror de Estaline parecia assentar no facto de nunca sabermos o que nos esperava.” – pág. 189

Opinião

Poucos são os livros em que as citações nas lombadas, capa e contracapa me convencem. Excertos de críticas que asseguram que será, por exemplo, “o melhor livro das nossas vidas” e comparando com livro x ou y já não me aquecem nem arrefecem, obriguei-me a despegar-me delas.

Com O Longo Inverno aprendi a – tentar, pelo menos – não extrapolar. Este livro é claramente um exemplo em que as boas críticas são mais do que merecidas. “Devia ser de leitura obrigatória”, “de enorme relevância social e histórica”, “um livro de uma força emocional impressionante”, com “uma história de sofrimento e de triunfo do espírito humano”, com um “estilo contido, mas marcante” e com uma protagonista “inesquecível que não deixará de comover qualquer leitor”. E é isto, tudo verdade, sem tirar nem pôr.

Decidi ler este exemplar devido a Sonhos de Papel, um outro romance da autora publicado cá em Portugal, ao qual dei 1* e cujo enredo e personagens não me tinham convencido. Na altura, a Mafalda do ADPOC sugeriu-me este e fiquei de olho nele até o conseguir adquirir. A maioria das reviews eram encorajadoras, muito positivas. Criei expectativas, claro, ainda para mais sendo um livro de teor histórico. O Longo Inverno excedeu tudo o que eu criei na minha mente. Tudo.

Na semana passada li Tatiana e Alexander, de Paullina Simons, um romance histórico de nível épico que eleva o amor e a esperança, a maldade e a coragem humana. Este de Ruta Sepetys conta-nos a história de Lina, uma rapariga de 15 anos que é deportada com a família da Lituânia para os campos da Sibéria. Ao longo de 270 páginas fala-nos da sua viagem, dos que a rodearam, do seu desenvolvimento, dos medos e das crenças, da esperança e do amor.

A crítica diz que a autora tem um estilo “contido”. Sim, é verdade. A escrita é excelente de tão simples. É poética sem cair no exagero, é emotiva sem apegar ou obrigar o leitor à lágrima, esta vem-nos naturalmente – estive várias vezes para chorar ao imaginar os cenários descritos, mas consegui controlar-me – é um livro com um grande valor sentimental na quantidade certa.

Na maioria das histórias sobre a Segunda Guerra Mundial, o nazismo e a URSS, etc, é-nos dada a conhecer vidas reais ou ficcionadas de judeus que fugiam à "purificação de raças" - é o caso de O Diário de Anne Frank de amores que ultrapassaram todas as barreiras e que venceram tudo e todos – como é o caso da trilogia de Paullina Simons – conhecemos um sem número delas, de todas as formas e feitios, que nos relatam com uma acuidade histórica de nos arrepiar os pelinhos até dos dedos dos pés que são poucos e estão tapados. Verdade.

Esquecemo-nos, porém, dos países que estavam no meio das duas potências em guerra: Lituânia, Letónia e Estónia. A União Soviética ocupou estes países em meados de 1939, uma altura em que se formavam as “listas de morte”, que acusavam as pessoas de serem anti-soviéticas, de espionagem ou cumplicidade e as condenavam à morte, à deportação ou à prisão. A morte, essa, se não por via directa através de um tiro nos miolos e abandono à beira da estrada e empilhados uns nos outros como se nada fosse, seria por fome, frio ou doença ou por isto tudo junto.

14 de Junho de 1941 foi quando ocorreu a primeira deportação... As listas continham nomes de médicos, advogados, professores, militares, escritores, empresários, artistas, bibliotecárias e até colecionadores de selos! Notamos aqui um padrão, pessoas instruídas, inteligentes, bem capazes de fazer frente ao estado fascista por terem dois dedos de testa e opiniões bem formadas, inclinações políticas mais liberalistas, mais humanas. Ninguém queria que a palavra se espalhasse. “Conhecimento é poder”, dizem uns. E dizem muito bem.

Estaline e Hitler semeavam o terror, subjugando através de torturas, prisões, deportações e tudo o que de horrível possamos imaginar para vergar os condenados e os manter em silêncio e com medo. As opiniões dividiam-se, uns asseguravam que Hitler e a Alemanha eram a sua salvação, outros que Estaline é que era o santo. Era Hitler com os seus campos de genocídio, Estaline a deixar morrer o próprio filho. Eu repito: o próprio filho, que foi acusado de traição à pátria por ter sido capturado por tropas inimigas! A ignorância era tanta que poucos viam que nem Hitler nem Estaline moviam um dedo para lhes assegurar a sobrevivência - eram feitos da mesma farinha! – a solução residia em tentar sair dali o mais depressa possível. A Europa e o mundo também permaneciam no escuro, sem saber as atrocidades que se cometiam nos campos de trabalho e arredores, alheios à desumanização, e só muitos anos mais tarde é que começariam a surgir os testemunhos de guerra.

No meio disto tudo, temos Lina e outros deportados a tentar sobreviver a cada dia, com parcas rações e reduzidos recursos. Mais uma vez, sentimos a vontade de viver a sobrepor-se. Lina, como artista que era, encontrou forças nos seus desenhos, no seu pai e na sua família, nas suas recordações; fortaleceu as forças com a esperança de passar a palavra, para que mais tarde todos soubessem e tomassem conhecimento do que eles passavam.

O Longo Inverno depressa se tornou num dos livros da minha vida. Mais um que me foi – é – uma enorme lição de vida. 

Comments

  1. Sabes que romances em clima de guerra não são muito o meu "prato preferido" mas estou a gostar muito do da Paullina e a tua opinião a este "longo Inverno" transmite tanta emoção que é impossível não querer lê-lo! ^_^

    ReplyDelete
  2. O que achaste das citações? *-* adorei, adorei, adorei!! A opinião não fala muito do livro, mas do que aprendi com ele em termos de factos históricos... acho que é daqueles que não dá para falar mais porque não é suficiente.

    ReplyDelete

Post a Comment

Deixa aqui as tuas epifanias ^^
A gerência agradece :)

Popular posts from this blog

Contos| 5 ideias para escrever

Depois de um mês que foi um D E S A S T R E, surge Março com a luz ao fundo do túnel. 
Ainda estou doente, mas se não me puser de pé o corpo e a mente habituam-se ao bem bom da caminha e não pode ser. Chega de mandriar. De pé, decidi escrever. Como se uma coisa tivesse a ver com a outra...
Eu repito: decidi escrever. Em 2013 terminei o meu primeiro draft e fiquei com menos um esqueleto na gaveta com a promessa de reduzir os restantes. Em 2014, peguei-lhe e dei-lhe uma volta de 180º, integrei muitas coisas, novas situações, personagens, twists, mas... achei que ME faltava algo enquanto escrevinhadora, talvez mais experiência como leitora. Vai daí, deixei as ideias em lume brando e dediquei-me à leitura; li de tudo, li muito, li livros pequenos e grandes, em português e inglês, físicos e e-books. 
Em 2015, propus-me a terminá-lo. E quem anda nas ruas do editanço e etc e tal, sabe como funciona. Aiiii, que isto está tão bom. Hãããn qu'é que andaste a beber?!?! Está horrível! Fui eu que e…

"A Grande Revelação", de Julia Quinn

Goodreads
Opinião
Quando se trata de Julia Quinn, não consigo ser imparcial. Não, correcção: não sei ser imparcial. Para falar a verdade, não que o seja nos outros livros que leio, mas com esta autora é diferente.
Este livro é especial, por muitos motivos. Um deles é ter revelado o GRANDE segredo que é absolutamente fenomenal. Ainda outro prende-se pelo dom que ambos os protagonistas têm em comum. Um gosto que também é o meu... e não, não vou dizer qual é porque seria um spoiler de todo o tamanho. Esperei muito tempo – talvez umas duas semanas para comprar o livro que eu pensava que sairia a dia 27 de janeiro, e mais duas semanas para comprá-lo efectivamente depois do lançamento - mas, puf, isto não é nada certo? Nada, comparado com os meses que ficarei à seca à espera do 5#, oh dear Lord…Focando a história, que isso é que importa, tinha muitas expectativas sobre ela. Quando lemos um ou dois livros de uma dada autora, ainda é como a outra. É novidade e, por gostarmos tanto, tanto, tanto,…

yWriter

Nota aos LeitoresDecidi partilhar algumas dicas, programas, sites, etc que me têm ajudado a desempenar na escrita. Incrível foi eu já ter este post escrito e agendado e alguém me dizer: tenta usar a escrita e o blogue como "testemunho" e não como "confidência". Por isso, eis-me aqui... com uma dica que me tem realmente ajudado! 
 *

Utilizo este programa há uns anos e só tenho coisas boas a dizer!

O que é yWriter?