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Ser escritor | Autocriticismo e deslumbramento

Como o pessoal gosta é de escandaleira, este artigo surgiu por obra e graça do Espírito Santo. 

“O autor é cego na sua própria criação.”

Há uns dias estava a conversar com duas pessoas e a frase surgiu-me. Se formos a reflectir, é um pouco ao estilo de Simón Bolívar.  

E o que quer isto dizer? Como assim, os autores não são imparciais com o seu trabalho? A resposta é simples: não. Longe de mim querer generalizar, como já tenho feito estupidamente, mas atrevo-me a dizer que só uns quantos o conseguem ser.

Já tinha escrito este texto  quando vi esta crónica no Observador, "Grávidos de Literatura". Cá para mim, João Pedro George quis dizer que os autores portugueses [nem todos, saliento] têm o rei na barriga... ou isso ou recorreram a barrigas de aluguer. O artigo original, no blog Malomil, gerou controvérsia com um dos alvos da crítica, João Tordo. Independemente do que penso, vou fazer de advogada do Diabo - se metem Deus ao barulho, ora! - enquanto um peca por generalizar, o(s) outro(s) peca(m) por falar demasiado. 

Uma verdade incontestável é... 

Muitos escritores e pseudo-escritores, nem todos, atenção, precisavam de uma injecçãozita de humildade - será que vendem destas na Farmácia? Discorrer sobre Deus, profetas que proclamaram a palavra e foram dados como mentirosos de nada vai valer. Em vez disso vou falar sobre...

Autocriticismo vs. Deslumbramento

Coisa pouca, vai ser rápido, prometo. 
Se, por um lado, existem autores que são muito autocríticos com o seu trabalho, por outro existem aqueles que ficam deslumbrados com o que escrevem, não sabem reconhecer as falhas e dizem que tiveram mão do divino. Isto não é propriamente um mau agoiro, até é bom que o "criador" acredite no seu trabalho, goste do que escreva e que nunca esqueça que pode dar algo ao mundo nem que seja a uma aldeola qualquer com sujeitos de terceira idade - porque, senhores, é uma sensação fantástica! 

Para os escritores mortais, i.e. todos os que não estão a par(t)ir a literatura, gostar e acreditar no seu trabalho não é mau, claro que não, pode é dificultar o processo de escrita e de revisão – tal como acontece no criticismo excessivo. 

Ao início, comecei a escrever isto, porque voltei às minhas pesquisas e encontrei inúmeros artigos, blogs e sites com dicas "Como fazer…?" [How to, pois a maioria é em inglês] ao jeito de “faça você mesmo” e à laia de diagnóstico de necessidades.


E aqui é que a porca torce o rabo. 
Passo a explicar: em situações sociais e ao relacionar-se com os outros, é comum o indivíduo dar uma imagem mais positiva e/ou melhor de si mesmo. Um pouco como no meme, não era bem este que queria mas exemplifica bem. 
Numa entrevista de trabalho, numa troca de email's, conversas no chat ou em situações em que temos de enaltecer o nosso valor, puxamos sempre a brasa à nossa sardinha. Verdade? Em Psicologia, nos questionários de autoavaliação, os sujeitos respondem por vezes perante o efeito do que é socialmente desejável e não tanto sob uma perspectiva realista. Ainda bem que existem formas de contornar este enviesamento! 

E na escrita? Pois é, o diagnóstico de necessidades do escritor acaba por ser enviesado pela subjectividade que está inerente ao ser humano.

O que fazer?
Primeiro, é importante deixar de fumar ganza, ou seja lá a droga que andam a meter para dentro do corpo. Nada cai do divino, do céu - a não ser a chuva - e se os escritores pegam na caneta ou teclam no computador é porque a ideia surgiu deles inspirada por aquilo que vêem/comem/visitam/... e não porque alguém se lembrou de escolher random da população portuguesa meia dúzia de gatos pingados para passar a palavra através da literatura. 

Segundo, perguntas como estas e estas, por exemplo, podem ajudar. MAS… o problema persiste: será que o escritor consegue autoavaliar-se da forma que necessita para progredir? 

Terceiro, para os escritores, jovens ou não, que ainda não ouviram o chamamento do Senhor...

1) Ter paciência é essencial: o processo de edição pode ser apaixonante ou uma valente dor de cabeça, mas equivale a muito trabalho nos bastidores. Nada cai do céu e pensar assim é morrer na praia. Muitos pensam que escrever um livro em menos de um ano é uma conquista, outros que cinco ou seis anos é muito tempo. Aliado à subjectividade, o artista sofre também de impaciência – mas isso servirá para outro post.
2) Saber esperar: é comum ouvir “acabei e quero publicar”. Durante o tempo de espera, novas ideias podem surgir, pode ganhar mais experiência com as leituras e como consequência tornar-se um crítico mais eficiente do seu trabalho.  É win-win para todos. 
3) Deixar a história assentar: esta vai de encontro às anteriores, mas é fundamental acabar o 1º draft, PARAR, primeira revisão, PARAR, segunda revisão, PARAR, …, PARAR, leitores-beta, PARAR, nova revisão, …, submissão do manuscrito. Tudo isto leva tempo; ter paciência e saber esperar complementam-se com deixar a história assentar.
4) Pesquisa e influências: livros de escrita e de outros géneros, vídeos no youtube, sites sobre escrita e de escritores [são coisas diferentes], cursos online (mas fujam do Chagas - se existe publicidade enganosa, não estou a difamar, só estou a ser amiga em alertar!). Os filmes, séries e livros dão-nos a oportunidade de fazer o exercício mental de desconstruir o plot e “pensar como um escritor” – apesar de ser ficção, haverá melhor exercício? A vida quotidiana, a família, relações interpessoais, etc, etc, etc. Tudo nos influencia, cabe a cada um agarrar com unhas e dentes o que achar melhor.  
5) Tentar ver com novos olhos: esta é difícil. Por isso é que o 3) é tão importante. À luz da nova perspectiva, é usar os diagnósticos de necessidades que encontrem pela net: o plot resulta? A personagem x ou y não está demasiado infantil? demasiado séria? demasiado coquete? O pacing está muito lento ou muito rápido? … Muitas são as questões, desenganem-se: as respostas não caem por obra e graça do Espírito Santo. Procurar, estudar, procurar, estudar... lalala.
6) Experimentar e não ter medo de cortar: se não resultar, volta-se atrás.
7) Escrever não é só escrever: o pensamento de que escrever é escrever, o resto não interessa é mentira. Pode fazer-se isto durante a escrita; mas nunca depois. Já não digo o de escrita, mas o processo de revisão precisa de mais respeito por parte do autor. Escrever é uma arte, uns nascem com o dom e outros têm de o polir, mas aprender mais será sempre necessário a todos. “Parar é morrer”, aprender é evoluir.
8) Nenhum trabalho é isento de falhas e pode sempre fazer-se melhor: claro, como tudo. Este é agridoce; aconselho leitores-beta para colmatar o deslumbramento e para contornar o autocriticismo excessivo, se bem que este é mais difícil de controlar...

9) Por último: É importante que não sigam o exemplo dos "grávidos de literatura", pois a não ser que tenham o rei lá dentro ou que recorram a barrigas de aluger, toda a gente sabe que são precisos 9 meses para gerar a criança e uns 18 ou 20 anos, no mínimo!, para ela sair de casa, por isso... não sigam. --> Reinventem-se na vossa própria criatividade, não sigam o rebanho. 

Parecem não fazer a diferença mas, pela experiência que tenho como "escrevinhadora de rascunhos" e leitora-beta, são dicas preciosas e que muitos escritores desvalorizam. Pior, que muitos escritores nunca ouviram falar e que aqueles que se dizem famosos pensam estar acima [só têm de se lembrar que quanto mais sobem, mais forte é a queda].

Dito isto... Não fui eu que escolhi escrever este artigo. Foi este artigo que escolheu ser escrito por mim. 

Amém.

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