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Sou muitas coisas...

E quem não é?

"A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. [...] Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito."
Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego

Considero-me muitas coisas. Coisas. Como se eu fosse um objecto, algo inanimado que sofre alterações no tempo por um tempo que se recusa a desacelerar. Um pouco como acontece às coisas vivas. Isto faz algum sentido? Não gosto da palavra e encontrar a certa seria uma conquista, significaria que tinha descoberto quem sou, o que sou e como sou. Não sei se uma vida chegava. 

Utiliza-se coisa, ou cousa, para tanta coisa. Fui ao dicionário cá de casa. Coisa: ver cousa. Que brilhante. Andei para a frente. Cousa: o que existe, facto, negócio, mistério. Pl. Bens, Cousas do arco da velha. 

Ainda não satisfeita, procurei no dicionário online. Acrescentou-se: acontecimento, causa, espécie, e expressões que usamos no dia-a-dia do género aqui há coisa. Oh, se há. Ou talvez não. 

Considero-me muitas coisas. Ser introspectiva é uma delas, vejo e revejo os meus dias à noite e/ou depois de cada situação, oiço a minha voz e os meus pensamentos; o que pensei na altura e o que disse na altura. O que pensei antes e depois. Pensas demais, há anos que me dizem, pensas demais!  

Penso? 

A linha que separa o antes e o depois tem um durante e outra das coisas que sou, e que se encaixa no meio, é impulsiva. Quando a introspecção e a impulsividade andam de mãos dadas é como assistir a uma luta entre Titãs. É um teste para ver quem resiste e quem vence numa batalha de vontades que não tem, nem deve ter, um vencedor. Às vezes cai-se no buraco; outras fica-se à superfície, mas nunca se consegue subir. 


Conclusão: penso demais e ajo demasiado depressa. E isso faz com que diga as coisas erradas na hora errada. Sempre. Quem sofre são os outros, coitados, que levam comigo e que têm de me aturar. Ai, Murphy, Murphy, que faço eu contigo? 

Já nem falo de uma terceira coisa que sou... introvertida

Sabem o que vos digo? 

Lá estou eu a ser impulsiva.
Já não digo é coisa com coisa. 
E estou aqui a pôr-me com coisas. 
Pensas demais, Ivonne, pensas demais! Já diziam os outros.
Ao chegar aqui, penso que têm razão. 

*Imagem retirada daqui.

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